Semana passada resolvi crer, novamente, no potencial das produções cinematográficas brasileiras e fui ao cinema assistir ao filme Jean Charles. Não me arrependi e confesso que fiquei um tanto quanto surpreso. O filme é bem feito, os atores foram bem selecionados e nos transmite uma mínima parcela da tristeza do caso.
O ano era 2002. De origem simples, Jean Charles de Menezes (brasileiro, de origem mineira) fez o que milhares de brasileiros fizeram e continuam fazendo aos montes. Percebendo a necessidade de sua família e buscando uma condição de vida melhor, Jean resolveu viajar para a Europa e instalou-se em Londres, na Inglaterra, entrando no país com um visto estudantil. Trabalhando e ganhando em libras, seria teoricamente mais fácil de juntar boas economias e enviá-las para seus pais no Brasil.
Em pouco mais de quatro meses na capital inglesa, o brasileiro já dominava bem o idioma e fez bons amigos, que o ajudaram no início de sua nova vida na Europa. Jean era conhecido por todos como um indivíduo de coração enorme, sempre disposto a ajudar. Oficialmente eletricista, o mineiro de origem simples passou a ganhar dinheiro ajudando os brasileiros com vistos de permanência no país, em troca de favores. E assim ele ia aumentando seu círculo de amizades na terra dos Beatles.
O ano era 2005, mais precisamente 7 de Julho, em uma quinta-feira. O mundo chocou-se com os atentados terroristas
A Scotland Yard (o FBI inglês) foi acionada, então, para realizar uma grande busca atrás dos verdadeiros culpados deste trágico episódio. Os agentes especiais passaram a analisar todas as gravações das câmeras de segurança das estações de metrô e da região, além de investigar qualquer pista que lhes fosse interessante.
Segundo o Censo de 2001, 71,15% dos londrinos são compostos pela etnia branca (59,79% de origem britânica, 3,07% de origem irlandesa e 8,29% outras origens como polonesa, grega, italiana e francesa); 12,09% são de etnia asiática (Índia, Paquistão e Bangladesh, na sua maioria); 10,91% são de etnia negra (7% negros-africanos, 4,79% negros-caribenhos e 0,84% de outra origem); 3,15% são mestiços; 1,12% são de origem chinesa; 1,58% são de outras origens (principalmente Filipinas, Japão e Vietnã).
De acordo com este mesmo censo, haviam cerca de 60 mil de brasileiros residindo em Londres, o que fazia o Brasil ocupar a oitava posição no ranking de nacionalidades mais representadas numericamente na capital inglesa. Antes do Brasil, somente estavam Quênia, Paquistão, Nigéria, Jamaica, Bangladesh, Irlanda e Índia.
O calendário marcava 22 de Julho de 2005, precisamente quinze dias depois dos ataques
Existem controvérsias sobre o ocorrido. Mas o fato é que hoje é dia 7 de Julho de 2009, quatro anos depois das explosões que chocaram Londres e o mundo, e logo mais será dia 22, marcando o quarto aniversário da morte de Jean. Marcando o quarto aniversário da injustiça. Os britânicos orgulham-se por fazerem parte de uma das economias mais poderosas de todo o planeta, de possuírem um elevado nível de vida, de ser o palco da cultura, da moda, da música e da história. Realmente eles têm do que se orgulhar, contudo a aclamada Scotland Yard deixou de lado a hombridade, o respeito e o bom senso.
Mais do que isso, visto que o crime ocorreu em terras estrangeiras, a polícia brasileira nada pode fazer. A investigação inglesa mostrou que a atuação dos agentes foi completamente equivocada e a mídia britânica mostrou ao mundo evidências de que Jean Charles não tinha nenhum vínculo com os atentados terroristas. Porém nada ocorreu com os policiais da Scotland Yard. Estão em liberdade, enquanto o governo brasileiro nada pode fazer, a não ser publicar em nota oficial, a partir do Ministério das Relações Exteriores:
"o governo brasileiro ficou chocado e perplexo ao tomar conhecimento da morte do brasileiro, aparentemente vítima de lamentável erro. (...) o Brasil sempre condenou todas as formas de terrorismo e mostrou-se disposto a contribuir para a erradicação desse flagelo dentro das normas internacionais, aguardando explicações das autoridades britânicas sobre as circunstâncias da morte de Jean Charles."
E até hoje os familiares e amigos do brasileiro aguardam explicações e providências.
Mais do que um filme, uma verdadeira história de alguém que teve a vida interrompida friamente por aqueles que "se enganaram". Muito mais do que uma história, uma lição, para que as aparências não permitam enganar nunca mais.
Jean Charles de Menezes
7 de Janeiro de 1978 - 22 de Julho de 2005
Rest in Peace. Porque ele gostava de falar em inglês.
Escrito por: Denis Araujo