6 de set de 2008

Nacionalismo e Futebol: A Relação de Duas Profundas Ideologias

Uma das maravilhas (do ponto de vista informativo, é claro) do mundo atual é a globalização e seus processos evolutivos. Fica evidente que estabelecemos contato com diversas culturas diariamente, independente do lugar do mundo onde estivermos. Tais processos evolutivos trazem a tona todos os dias um termo utilizado por Samuel P. Huntington em seu livro, cujo mesmo carrega o próprio termo no título: O Choque das Civilizações. De forma sucinta, a idéia deste choque está presente nas cenas do noticiário da noite: conflitos na Faixa de Gaza, a iminência de uma guerra entre Índia e Palestina, o recente alavancamento da crise entre Geórgia e Rússia, a afirmação de Kosovo como uma nação independente etc, ou seja, o Estado deixa de ter um papel exclusivo nos embates e a civilização começa a ser mais ativa (justificado pela ação dos mais variados grupos nos mais variados conflitos). As guerras da atualidade (e mesmo as antigas) sempre trouxeram uma disputa evidente: o embate entre ideologias diferentes, enfatizadas por um nacionalismo exarcebado. Mas a globalização citada no início deste texto também traz aos poucos uma teoria polêmica: o nacionalismo como conhecemos está chegando ao fim.

O choque de culturas, o qual convivemos diariamente, transforma a sociedade. E a globalização é a "culpada" por este fato. Sua evolução conforme os anos transformou, mesmo que indiretamente, o conceito de nacionalismo tão presente nos discursos políticos de outrora. Como isto se justifica? Basta observarmos um ponto bastante perceptível deste fato: as guerras dos séculos passados e, principalmente, as guerras mundiais do século XX exterminaram um absurdo número de pessoas, civis e soldados. Entretanto, boa parte dos conflitos armados atuais (por conta de avanços tecnológicos e ideológicos) não dizima civis aos montes como ocorria antes, tendo em vista que os alvos são muito mais perceptíveis em sua grande maioria. Os civis (deixo bem claro que não são todos, mas uma grande parte) passam por um processo de imigração obrigatória, ou seja, são forçados a se refugiar em outros países. Gostando ou não, os países que recebem os refugiados são obrigados a enquadrá-los em seu sistema, e os imigrantes passam a conviver com uma nova realidade, porém carregando consigo sua identidade cultural primária.

Evidente ou não, o fato é que a identidade nacional que se tinha anteriormente passa por um processo de adaptação ao enquadrar tantos indivíduos originais de outros territórios, de outras culturas. E o sentimento da pátria passa a se perder, ou então a se transformar, surgindo talvez o que podemos chamar de "nacionalismos" em um mesmo país ou mesmo "transnacionalismo". Eric Hobsbawn cita em seu texto "As Nações e O Nacionalismo no Novo Século" (presente no livro do mesmo autor "Globalização, Democracia e Terrorismo") : "[...] Como Benedict Anderson observou com acuidade, o documento crucial de identidade no século XXI não é a certidão de nascimento do Estado nacional, e sim o documento internacional de identidade - o passaporte ". E completa com questionamentos bastante pertinentes: "Qual é o significado dos direitos e obrigações de cidadania nos Estados em que uma proporção substancial dos seus habitantes [...] está ausente do território nacional ou em que uma proporção substancial dos residentes permanentes tem direitos inferiores aos dos cidadãos nacionais? Dada a escala dos movimentos, legais e clandestinos, qual é o efeito do declínio do poder do Estado para controlar o que acontece no seu território, ou mesmo - como a recente falta de confiabilidade dos censos nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha parece indicar - para saber quem nele reside?"

E onde entra o futebol neste tópico?

Pois bem. O futebol é, desde os anos 80, uma grande “empresa” que movimenta enormes quantias de dinheiro todos os dias, tudo por conta da atividade global televisiva, que fez com que este esporte se tornasse, de fato, um "complexo industrial capitalista de categoria mundial", como explicita Hobsbawn (cito a década de 80 porque é o período em que se iniciou o grande fluxo de jogadores contratados para jogar em clubes de outros países). A partir disso, podemos identificar dois tipos de identidade em um mesmo jogador: a local (do clube onde joga) e a nacional (representada pela seleção que o próprio representa). Entretanto, a identidade nacional do jogador é profundamente ofuscada pelos salários monstruosos e remunerações que recebe do clube onde atua, fazendo com que, muitas vezes, o atleta prefira atuar apenas no país em que está jogando do que na seleção que representa sua pátria (ou até mesmo faz com que as grandes empresas do futebol proíbam que o jogador atue na seleção, como praticam os grandes clubes europeus).

O atrativo monetário e a boa receptividade que os atletas recebem nos mais diversos clubes dos mais diversos países em que jogam, provocam, inclusive, que o jogador assuma uma segunda nacionalidade e que até jogue por uma nova seleção (como ocorre com jogadores brasileiros na Europa ou no Japão e, principalmente, como ocorre com jogadores africanos). As duas maiores conseqüências deste processo são: 1) a supervalorização e a manutenção do alto nível dos campeonatos europeus, principalmente; 2) o enfraquecimento dos clubes de países subdesenvolvidos, como ocorre com freqüência no Brasil e na Argentina, que passam a vender seus jogadores cada vez mais cedo para lucrarem durante as temporadas ou no intervalo das mesmas.

Todos estes fatores influenciam, e muito, no conceito original de "nacionalismo". Porém ainda existe um exemplo primordial da permanência do sentimento nacional dos jogadores de futebol: a Copa do Mundo. Este torneio provoca, principalmente nos países africanos e asiáticos, a ascensão de uma identidade nacional que vai além da localidade, religião, cultura, tribo etc. O sentimento pátrio é aflorado a cada 4 anos no torneio mundial. Isto se justifica objetivamente com uma frase de Eric Hobsbawn: "a comunidade de milhões aparece com mais realismo em um grupo de onze pessoas do mesmo país".

Para finalizar, é necessário citar outro ponto: a xenofobia. Os países desenvolvidos tendem a sofrer (ou a se vangloriar, dependendo do ponto de vista) com o crescente sentimento dos torcedores, primeiramente pelo clube, posteriormente pela seleção nacional. E é por isso que, por mais que se tente coibir, o "hooliganismo", os skin heads e as torcidas organizadas violentas jamais deixarão de existir.

Portanto, é provável que hoje seja necessário discutir nas escolas, nas rodas de conversa, no trabalho e em casa com a família o que significa "nação". Porém não por conta do sentimento, mas sim por conta da cidadania, esta que não pode perder suas funções originais, independente de onde morarmos. E o que significa cidadania? Bem, este é um outro assunto.