9 de dez de 2008

Retrospectivas da Consciência

Acho incrível quando me deparo com as grandes avenidas movimentadas. As mais variadas pessoas indo para os mais variados destinos, correndo atrás dos mais diversos objetivos. O curso da História nos mostra o quanto que os roteiros dos grandes artistas do mundo tornaram essa peça que a gente chama de vida um pouco mais complicada, um pouco mais imperceptível e muito mais simples e dinâmica.

Entretanto também me deparo com situações bastante curiosas e que me surpreendem de maneira bastante positiva. Um exemplo disso foi um evento que tive a grande honra de participar no colégio em que me formei. Este evento é realizado por alunos do segundo ano do ensino médio e, desprovido de seus valores e libertando-se da grande influência da cultura de massa que os domina, os estudantes defenderam e criticaram idéias que todos os dias fingimos que não existem ou que não importam. Afinal de contas, não é todo o dia que assisto jovens de 16 anos dialogando tão bem sobre a mídia, sobre a sexualidade, sobre o cotidiano do mundo, sobre política, entre outros. Em suma, dialogaram sobre suas próprias vidas, mas não da maneira que vivem, e sim como se pudessem ser, por alguns instantes, agentes observadores de si... Em resumo, como se fossem sua própria consciência.

Gosto de acreditar que o mundo não está perdido, como disse minha mãe uma vez. Prefiro acreditar que cada um pode, no mínimo, ser responsável pelo que pensa, pela música que o guia e pelo mundo em que vive. Doce ilusão a minha quando me recordo do sofrimento dos africanos em seu continente. Recentemente escrevi um artigo sobre a Conferência de Berlim e nele pude expor de maneira crítica o sofrimento que o povo da África sofreu e ainda sofre. Me recordo da frase de um líder africano, que disse que “o desenho original da África foi combinado em Berlim”. Mas ele estava enganado. Não só o desenho continental, mas o desenho vital do povo também foi feito pelas grandes potências, culminando em um desastre absurdo.

Ainda alimento esta ilusão quando me deparo com a precariedade da sobrevivência das classes menos favorecidas no Brasil.

Mas o que penso não é apenas sonho. É, na verdade, uma ponta de esperança. Sabem o por quê de eu ter me sentido muito bem quando assisti ao evento no colégio? Exatamente porque percebo que quando os adolescentes querem, eles conseguem ir muito além da aparência. Mas não somente os mais jovens. Acredito que todos podem ser assim. Todos tem a capacidade, se quiserem, de refletir sobre o mundo onde vivem, sobre o que são, sobre sua essência. Nietzsche resume muito bem todo esse pensamento quando diz “torna-te quem tu és!”. E acho que é assim mesmo que deve ser. O ser humano vive preso a tantos valores, a tantas pressas e tantas preocupações, que muitas vezes esquece-se de si mesmo, de quem é.

Não é uma questão de ser positivo. É uma questão de consciência. Esta é o pano de fundo para todas as ações, para todas as vivências, para todas as observações e análises. Nada pode ser tão mal feito quanto invadir o Iraque, manter tropas no Afeganistão e preocupar-se com o Paquistão de maneira tão equivocada ou, no mínimo, mal planejada. Nada pode ser pior que repreender um povo que luta por sua autonomia de forma tão violenta, como ocorre na Espanha (País Basco), China (Tibete), Rússia, entre outros.

Nada pode ser tão mal feito quanto não pensar no mundo onde vivemos. Simplesmente não dá para não se importar com a vida, deixando-a cada vez mais monótona. Neste evento que pude participar defendi que a crescente classe média do Brasil é a que mais sofre com diversos agravantes, como por exemplo o preconceito e o comodismo. A classe alta repudia os medianos que não conseguem atingir seu elevado patamar, enquanto que a classe baixa os repreende por tê-los deixado. E ao invés de demonstrar o valor que possui, o brasileiro acomoda-se com uma vida média, com pensamentos médios, com vivências médias.

A vida é muito para ser simplesmente média. Quem ensina são os marginalizados da sociedade, os pobres, os que passam fome, os desempregados, os que nada tem com a guerra mas que perdem seus parentes injustamente... Estes sim são os maiores professores e nossa consciência é o melhor dos instrumentos do nosso próprio aprendizado. É nisso que acredito, inconscientemente, no meu silêncio cotidiano.


Escrito por: Denis Araujo