27 de ago. de 2009

Marketing, Cultura, Globalização e Sucesso: o Aroma do Café Starbucks

Não é de hoje que o café faz parte do cotidiano dos brasileiros. Na realidade, este produto faz parte da história da formação econômica do Brasil, tornando-se ao final do século XIX e início do século XX, o grande impulsionador do desenvolvimento do país, perdendo seu poder apenas em 1929, com a crise financeira. Os grãos eram o principal produto de exportação do país, que espalhou pelo mundo um produto fortemente apreciado não somente pela nobreza, mas por todas as pessoas de uma maneira geral.


Contudo, o que nem todo mundo sabe é que o café não foi importante somente para os países exportadores, como o caso do Brasil. Este produto tornou-se essencial para Howard Schultz, presidente da Starbucks – a maior rede de cafeterias do mundo. Em 1982, em uma simples cafeteria de Seattle, nos Estados Unidos, o então gerente de uma fornecedora de máquinas de café viu sua vida se transformar, ao sentir o aroma de um bom café e ao observar as caixas estrangeiras dos grãos que estavam empilhadas do outro lado do balcão da pequenina Starbucks. Aquela sensação fez com que Howard entrasse de cabeça no negócio, adquirindo-o mais tarde com o auxílio de alguns investidores.


O executivo passou, então, a trabalhar firme na criação de um novo conceito para sua loja. Por mais que o café já fosse um grande diferencial, o produto ainda não era suficiente para atrair clientes, ainda mais nos Estados Unidos, que já desenvolvia seu american way of life baseado na onda dos fast-foods. Contudo, isso tudo mudou em uma viagem de Howard para Milão. Na Itália, o empresário encantou-se com os bares de café expresso, que chamavam a atenção por seu charme, sua cultura e popularidade. A partir disso, a loja Starbucks começou a ganhar os traços iniciais da sua fama, que foi impulsionada pelos lattes e mochas, nunca antes provados em Seattle, tampouco no restante dos EUA.


Hoje, a rede Starbucks preza pelo conceito de ser a “terceira” na vida de todos. Terceira por se situar depois da casa e do trabalho de cada um, tornando-se um lugar propício para encontros, reuniões, momentos descontraídos, descanso, reflexão ou para simplesmente tomar um bom café. Atualmente existem 15 mil lojas, espalhadas em 44 países, oferecendo em qualquer um destes, um ambiente bastante acolhedor. Em qualquer um destes, justamente porque a loja que se encontra nos Estados Unidos tem a mesma “cara” da loja que se encontra no Brasil, no Japão ou na França.


A internacionalização da marca seguiu os moldes básicos da internacionalização de qualquer outra empresa: o mercado interno já estava saturado e, buscando novas alternativas de lucro, a rede Starbucks apostou na expansão para o mercado externo, inicialmente para o leste asiático, posteriormente para América Latina, Europa e Oriente Médio. A ousadia foi além, com o serviço de café da marca nos voos da United Airlines.


Porém, a internacionalização da marca Starbucks teve que se adequar às necessidades de cada país. No Brasil, por exemplo, foi acrescido no cardápio o famoso pão de queijo e os muffins salgados, além de um sistema de processamento de grãos para café expresso diferenciado, que recebeu o nome de “Brasil Blend”, tudo para atrair os clientes do maior produtor e segundo maior consumidor mundial de café. Hoje existem dez lojas Starbucks no país, todas na capital paulista.


Fica evidente que para a rede Starbucks tornar-se a quarta marca mais influente no mundo, Howard Schultz e sua equipe tiveram que observar tendências particulares dos países, com a finalidade de unir toda a gama cultural necessária para fornecer aos clientes o mesmo tratamento fornecido nas lojas americanas. A criatividade, por si só, não teria sido suficiente, se não fosse a capacidade de empreendedorismo dos executivos, somada ao processo de globalização dos países.


Entretanto, a globalização também teve seu lado ruim para a empresa. A crise financeira que se instalou no ano passado e seguiu neste ano fez com que o lucro caísse bastante, fazendo com que os diretores entrassem em alerta. Para solucionar este problema, medidas eficientes e diretas foram aplicadas. Em primeiro lugar, Howard Schultz criou o cargo de principal executivo de criação, cujo trabalho é repensar o ambiente das lojas. Em segundo lugar, demitiu 220 funcionários de diversas áreas e fechou outras 380 vagas abertas nos Estados Unidos. Posteriormente, comprou a fabricante das máquinas Clover, uma das favoritas dos amantes de café. Ele também tirou do cardápio da Starbucks uma linha de sanduíches quentes, servidos no café da manhã, visto que os consumidores reclamavam que as lojas ficavam com cheiro de lanchonete de fast food. Além disso, passou a investir em um canal de fidelidade dos clientes. No exterior, as lojas Starbucks também tiveram que se adequar, e a palavra de ordem foi "cresçam!".


Mas o principal passo foi a criação de um blog para receber sugestões e críticas de consumidores, que são comentadas por executivos da rede. Esta inovação é, sem dúvidas, a maior de todas, adequando-se a uma sociedade que se moderniza a cada dia.


O que mais me agrada nas lojas Starbucks é a incrível sensação de conforto. Quem já experimentou tomar um bom café e bater um papo, sentado em uma daquelas poltronas ou sofás, ouvindo um bom pop-rock ambiente, sabe do que estou falando. Cafeteria americana de bairro + grãos de café estrangeiros + charme italiano + uma boa pitada de criatividade e empreendedorismo + cultura + globalização = um dos cases de maior sucesso de toda a história dos negócios.


Escrito por: Denis Araujo

10 de ago. de 2009

Bem-Vindo?

Ano da França no Brasil. Confesso que, como muitos brasileiros, não procurei saber o porquê deste ano ser considerado assim, porém resolvi aproveitar um dos diversos eventos culturais que estão sendo promovidos, ou seja, o melhor deles: o cinema.


Não sou um grande fã dos filmes franceses. Uma fotografia quase sempre fria, movimentos demorados, falas longas, que fazem com que o filme ganhe um ritmo bem lento. Sem dúvidas isto acontece com o filme “Bem-Vindo”, porém de maneira menos explícita. Na realidade, o que chama a atenção no filme são os detalhes da travessia de imigrantes clandestinos pela Europa, uma realidade que vai além das telas.


A União Européia cria leis cada vez mais duras, para evitar que imigrantes ilegais cheguem ao continente. O alvo destes sempre são os países mais desenvolvidos, como Inglaterra, França, Alemanha e Espanha. A maior parte destes viajantes é de origem africana e, principalmente, do Oriente Médio. A grande reclamação dos residentes legais destes países é que os imigrantes ocupam parcela significativa dos empregos dos países, fazendo com que muitos nativos fiquem sem emprego ou tenham que disputar emprego com os viajantes. E a justificativa principal dos ilegais é que precisam arrumar um trabalho melhor remunerado para enviar dinheiro às suas famílias, além do bem-estar social que podem alcançar.


Recomendo o filme, principalmente pelos detalhes dos problemas dos imigrantes. Viajam escondidos em caminhões, passam frio, fome, e muitos deles morrem na travessia. E um deles, no desejo de encontrar sua amada na Inglaterra, resolve treinar para atravessar o Canal da Mancha a nado visto que, se para entrar na França ele quase perde a vida, imagina o que aconteceria para chegar em Londres? Talvez nadar não seja a melhor alternativa, mesmo. Provavelmente ele poderia desistir e ficar em um lugar melhor. Mas como não poderia de ser, o filme precisou de um tempero maior para fugir da lentidão dos filmes franceses.


Somam-se a isso as diferenças culturais e o preconceito no continente europeu. O governo, sempre rígido, recomenda que os estabelecimentos fiquem atentos aos “diferentes”. E qualquer indivíduo europeu que ajudar algum imigrante ilegal será punido com a lei européia. Ou seja, jamais ajude seu semelhante na Europa, ou será julgado como qualquer outro criminoso.


Escrito por: Denis Araujo

4 de ago. de 2009

Boa Noite Vizinhança!

Que o Brasil é o país do futebol todos sabemos. Que o Brasil possui o maior território da América Latina, a maior parte da população também sabe. Porém o que muitos não sabem é que o país nem sempre foi esse vizinho bondoso que temos visto ultimamente. Na realidade, a situação do país frente à nova ordem mundial que se configura neste momento praticamente de pós-crise financeira é o que define se somos, ou não, bons vizinhos na América do Sul.


Mas afinal, qual a relação que existe entre a crise financeira mundial e a boa vizinhança continental? É algo simples de se estabelecer. Quando o terremoto na economia global começou, todos os países poderosos estavam em alerta vermelho, e os países de economia emergente, por sua vez, não queriam testemunhar a queda de seus grandes parceiros comerciais, logo obviamente todos desmoronariam. Porém dentre estes, alguns se destacaram, como foi o caso da China, da Índia e, no nosso caso, o Brasil. Banco Central, Ministério da Fazenda e presidente Lula previram, juntos, que o país sairia da crise mais fortalecido, mesmo sofrendo alguns abalos bastante perceptíveis.


Nos anos AC (Antes da Crise), o Brasil almejava obter um importante destaque no continente, se consolidando como a grande potência da região. Os vizinhos, em contra partida, olhavam com desconfiança. Paraguai, motivado pelos problemas de Itaipu e dos Brasiguaios, tratava os brasileiros com certo ar de inferioridade, chegando a taxar-nos de imperialistas. Bolívia ainda tinha muito que discutir com o governo brasileiro sobre o fornecimento de gás, para não sair perdendo nessa corrida pelo poder. Argentinos e mexicanos não somente deixavam para lá essa história de “Brasil Potência”, como também lutavam pelo título de liderança continental.


Vivendo a crise, nossos vizinhos passaram a nos ver de maneira mais especial, deixando as diferenças de lado e querendo agarrar na saia do Brasil para não sofrerem tanto. Os principais jornais dos países que compõem o MERCOSUL falavam o tempo todo sobre a importância de se firmar parcerias com o Brasil, visto que este possuía o maior potencial de sair fortalecido da crise.


Agora estamos vivendo um momento quase que DC (Depois da Crise). Alguns reflexos ainda existem, mas é notório o poder de recuperação do país. Essa recuperação traz à tona toda a ambição que o país tem de começar a ditar um pouco mais as regras do jogo. Deixar o país no caminho do topo da pirâmide é a maior ambição do presidente Lula neste final de mandato e isso ele já está fazendo. Os problemas sociais internos obviamente existem e espero que veja esse quadro se alterar cada vez mais, porém vejo que o Brasil finalmente ganhou um destaque mais visível nas relações internacionais como um todo.


E a política da boa vizinhança é o maior instrumento que o governo tem nas mãos. Estreitar as relações com os Estados Unidos e Europa, manter boa relação com os países asiáticos, realizar importantes e inovadores acordos com países africanos, transformar as relações Sul-Sul em um importante canal de desenvolvimento e, principalmente, consolidar as relações entre os países latino-americanos, especialmente os sul-americanos, em todos os aspectos, são algumas das atitudes que o Brasil está tomando e que certamente prosseguirá executando.


Não considero um erro grave o acordo feito recentemente entre o governo paraguaio e o brasileiro. O Brasil aceitou pagar praticamente três vezes mais o que pagava para obter a energia gerada em Itaipu, e o consumidor brasileiro é quem está reclamando, visto que é o verdadeiro pagador desta dívida. Contudo, pior erro seria manter este grave problema bilateral sem resolução. A boa vizinhança se faz assim: eu te dou uma xícara de açúcar, você me dá uma colher de sal e ambos esperamos que nossa relação permaneça amigável, para o caso de necessitar ajuda novamente.


Escrito por: Denis Araujo

24 de jul. de 2009

A Sociedade Brasileira e a Embriagues Político-Ideológica

A nova catástrofe que ecoa sobre a democracia, baseada esta em um conceito de total participação do povo, teve suas estruturas abaladas mais uma vez com a nova onda de denúncias e irregularidades vinculadas, desta vez, ao senado federal. Porém, muitos de nós, a massa da população brasileira, já se acostumou com tal tipo de notícia. Após o escândalo do mensalão eis que surgiu uma nova era na política brasileira; uma eclosão de CPIs, comissões, com a finalidade de se resolver o maior problema da política na atualidade, ou seja, a impunidade, esta que não decorre apenas de cassação ou suspensão de mandatos, mas sim que deveria ser, talvez, algo mais rígido, tendo em vista que alguns países adotam o extremo ao mandar para a “guilhotina” os políticos que assim se desvirtuaram.

Mas o que deveria ser uma solução acaba por vezes sendo mais uma ferramenta no campo do marketing político, ou seja, alguns vêem nesta uma oportunidade de assim se livrarem dos seus inimigos políticos ou simplesmente mostrarem serviço aos olhos do povo.

Embriagados pelos discursos, a população vê mais um motivo para desacreditar neste sistema democrático, sendo as eleições senão a escolha do menos pior e não daquele que realmente irá fazer a diferença, neste sistema enfraquecido pela própria falta de informação, independente de qualquer classe social ou visão política.

Partindo do pressuposto que não há um indivíduo responsável, mas sim um sistema, isso nos recorre a olhar os partidos políticos que habitam nossos senados, nossas câmaras e nossas prefeituras; se analisarmos as atividades dessas instituições, perceberemos o uso excessivo da ideologia política. Não que isso possa ser ruim ou bom, mas para entendermos os fatos é preciso ressaltar o que realmente importa - muitas das discussões no senado decorrente de um projeto de lei existe simplesmente pelo embate que há decorrente de uma visão ideológica diferente entre partidos não coligados. E cada um possui a motivação de defender os princípios gerais dos seus partidos, logo as consequências não poderiam ser diferentes, os escândalos, a luta pelo poder e, com ela, a corrupção, é o resultado de que os fins justificam os meios. Sendo assim, o partido acaba virando uma “criatura” com sentimentos e desejos, que cabe aos nossos políticos escutá-los ou não.

Fato é que aqueles que ousam não escutar acabam sendo pressionados pelo próprio sistema e, cedo ou tarde, acabam tomando uma posição. A sugestão deste texto não é incitar o leitor a fazer uma revolução, mas instigá-los a pensar nesses escândalos como fator proeminente de um sistema, e não das pessoas que ali estão sendo acusadas (isso ficaria a cargo da lei do nosso país em fazê-lo).

A sociedade, assim, espera ansiosamente por uma solução; deve ele, José Sarney pedir apenas um afastamento ou deixar sua poltrona de vez? Cada partido já expressou sua opinião, esses mesmos que fazem questão de dividir em: oposição e governo, gerando assim uma “guerra fria” sem previsão para o fim. Os mesmos que em discursos se dizem tanto em pról da democracia acabam, mesmo que inocentemente, criando um sistema, em que a maioria prepondera a minoria, criando um estado de demagogia desnecessária. A grande questão que vos deixo é: será que o Brasil, em plena “expansão” econômica, conseguirá por sua vez conciliar também uma expansão política, no sentido de evoluir o seu próprio conceito? Ou repetiremos nossa história de sermos apenas colônias, nos aproveitando apenas do nosso tamanho, enquanto os outros se aproveitam de nossa ignorância?

Escrito por: Filipe Matheus

7 de jul. de 2009

Ele Gostava de Falar em Inglês

Semana passada resolvi crer, novamente, no potencial das produções cinematográficas brasileiras e fui ao cinema assistir ao filme Jean Charles. Não me arrependi e confesso que fiquei um tanto quanto surpreso. O filme é bem feito, os atores foram bem selecionados e nos transmite uma mínima parcela da tristeza do caso.

O ano era 2002. De origem simples, Jean Charles de Menezes (brasileiro, de origem mineira) fez o que milhares de brasileiros fizeram e continuam fazendo aos montes. Percebendo a necessidade de sua família e buscando uma condição de vida melhor, Jean resolveu viajar para a Europa e instalou-se em Londres, na Inglaterra, entrando no país com um visto estudantil. Trabalhando e ganhando em libras, seria teoricamente mais fácil de juntar boas economias e enviá-las para seus pais no Brasil.

Em pouco mais de quatro meses na capital inglesa, o brasileiro já dominava bem o idioma e fez bons amigos, que o ajudaram no início de sua nova vida na Europa. Jean era conhecido por todos como um indivíduo de coração enorme, sempre disposto a ajudar. Oficialmente eletricista, o mineiro de origem simples passou a ganhar dinheiro ajudando os brasileiros com vistos de permanência no país, em troca de favores. E assim ele ia aumentando seu círculo de amizades na terra dos Beatles.

O ano era 2005, mais precisamente 7 de Julho, em uma quinta-feira. O mundo chocou-se com os atentados terroristas em Londres. Quatro grandes explosões ocorreram na capital inglesa (três nos túneis do metrô e uma em um ônibus), na hora do
rush. Mais de cinquenta e duas mortes confirmadas, com mais de setecentos feridos. Na época, a capital inglesa estava sediando mais um encontro do G8 e tinha acabado de ser escolhida como sede dos Jogos Olímpicos de 2012.

A Scotland Yard (o FBI inglês) foi acionada, então, para realizar uma grande busca atrás dos verdadeiros culpados deste trágico episódio. Os agentes especiais passaram a analisar todas as gravações das câmeras de segurança das estações de metrô e da região, além de investigar qualquer pista que lhes fosse interessante.

Segundo o Censo de 2001, 71,15% dos londrinos são compostos pela etnia branca (59,79% de origem britânica, 3,07% de origem irlandesa e 8,29% outras origens como polonesa, grega, italiana e francesa); 12,09% são de etnia asiática (Índia, Paquistão e Bangladesh, na sua maioria); 10,91% são de etnia negra (7% negros-africanos, 4,79% negros-caribenhos e 0,84% de outra origem); 3,15% são mestiços; 1,12% são de origem chinesa; 1,58% são de outras origens (principalmente Filipinas, Japão e Vietnã).

De acordo com este mesmo censo, haviam cerca de 60 mil de brasileiros residindo em Londres, o que fazia o Brasil ocupar a oitava posição no ranking de nacionalidades mais representadas numericamente na capital inglesa. Antes do Brasil, somente estavam Quênia, Paquistão, Nigéria, Jamaica, Bangladesh, Irlanda e Índia.

O calendário marcava 22 de Julho de 2005, precisamente quinze dias depois dos ataques em Londres. Uma importante pista encontrada pelos agentes da Scotland Yard levou a inteligência inglesa à um bloco de apartamentos. Os policiais deveriam estar observando três homens, de aparência somali ou etíope. Entretanto, eles avistaram Jean Charles de Menezes saindo para trabalhar e assim passaram a vigiá-lo. Ao embarcar em um dos trens da estação Stockwell, o brasileiro foi abordado pelos agentes e alvejado por estes.

Existem controvérsias sobre o ocorrido. Mas o fato é que hoje é dia 7 de Julho de 2009, quatro anos depois das explosões que chocaram Londres e o mundo, e logo mais será dia 22, marcando o quarto aniversário da morte de Jean. Marcando o quarto aniversário da injustiça. Os britânicos orgulham-se por fazerem parte de uma das economias mais poderosas de todo o planeta, de possuírem um elevado nível de vida, de ser o palco da cultura, da moda, da música e da história. Realmente eles têm do que se orgulhar, contudo a aclamada Scotland Yard deixou de lado a hombridade, o respeito e o bom senso.

Mais do que isso, visto que o crime ocorreu em terras estrangeiras, a polícia brasileira nada pode fazer. A investigação inglesa mostrou que a atuação dos agentes foi completamente equivocada e a mídia britânica mostrou ao mundo evidências de que Jean Charles não tinha nenhum vínculo com os atentados terroristas. Porém nada ocorreu com os policiais da Scotland Yard. Estão em liberdade, enquanto o governo brasileiro nada pode fazer, a não ser publicar em nota oficial, a partir do Ministério das Relações Exteriores:

"o governo brasileiro ficou chocado e perplexo ao tomar conhecimento da morte do brasileiro, aparentemente vítima de lamentável erro. (...) o Brasil sempre condenou todas as formas de terrorismo e mostrou-se disposto a contribuir para a erradicação desse flagelo dentro das normas internacionais, aguardando explicações das autoridades britânicas sobre as circunstâncias da morte de Jean Char
les."

E até hoje os familiares e amigos do brasileiro aguardam explicações e providências.

Mais do que um filme, uma verdadeira história de alguém que teve a vida interrompida friamente por aqueles que "se enganaram". Muito mais do que uma história, uma lição, para que as aparências não permitam enganar nunca mais.


Jean Charles de Menezes
7 de Janeiro de 1978 - 22 de Julho de 2005


Rest in Peace. Porque ele gostava de falar em inglês.



Escrito por: Denis Araujo

9 de jun. de 2009

O Maior Diplomata do Brasil é o Futebol?

A Copa do Mundo de Futebol está logo alí, na África do Sul, como diria o apresentador e repórter futebolístico Fernando Vanucci. E como é de costume, as seleções disputam as eliminatórias para que sejam classificadas apenas as melhores para o maior torneio mundial do esporte.

A mídia futebolística também parou esta semana para anunciar a contratação do jogador Kaká pelo Real Madrid, em uma transação milionária, como também é de costume por parte dos Merengues. Por outro lado, Luís Felipe Scolari, técnico pentacampeão com a seleção brasileira em 2002, anunciou que trabalhará no Bunyodkor, do Uzbequistão.

Não meus caros leitores. O Silêncio Cotidiano não virou uma agência de notícias esportivas. Contudo, o autor que vos fala resolveu questionar: será que o futebol brasileiro chama mais atenção no mundo do que pensavamos? E mais: será que a diplomacia do futebol é válida?

Reza a lenda que o Santos de Pelé foi capaz de parar uma guerra. A nova tentativa agora é o acordo firmado entre dois dos maiores clubes de futebol do Brasil (e sem dúvidas as duas maiores torcidas do país): Corinthians e Flamengo. Ambos firmaram uma parceria para promover o "Jogo da Paz" na Palestina, em uma tentativa de talvez amenizar os conflitos da região e fazer a população prestar mais atenção ao som da partida ao invés dos ruídos de uma guerra.

Mas será mesmo que a partida será voltada para fins sociais? Os diretores de marketing de ambos os clubes afirmam que sim. Entretanto não é bem isso que se verifica. Para começar, do lado do time carioca está o jogador Adriano, ex-Inter de Milão. O Imperador, como era conhecido em terras italianas, enfrenta um momento tempestuoso em sua carreira, carregada de momentos depressivos e sumiços dos treinos, aliados a sua ainda presente técnica e habilidade; do lado paulista, Ronaldo, eleito três vezes o melhor jogador do mundo e maior artilheiro das copas, enfrenta hoje um momento de afirmação em sua carreira, afinal de contas passa por uma situação pós-cirurgia, somado ao sucesso repentino no clube do Parque São Jorge. O Fenômeno, como é conhecido, ainda é embaixador da Unicef e a todo o momento conversa com seus contatos para promover ações sociais no mundo, auxiliando o Corinthians na valorização internacional de sua marca.

Uma partida nesse nível certamente exige um alto custo, por mais que não se mencione. O estádio será preparado, a cidade protegida, a população avisada. Entidades do mundo todo estarão presentes. O "Jogo da Paz" é, sem dúvidas, o "Jogo do Marketing". Será uma fantástica oportunidade de divulgar a marca de ambos os clubes pelo mundo, de uma forma positiva se o evento for um sucesso, ou de uma forma negativa, se for um grande fiasco.

Mas tenhamos a grande certeza de que a paz na região não será jamais atingida por causa de um jogo de futebol. A iniciativa é, sem sombra de dúvidas, um ato corajoso e que, por 90 minutos, poderá funcionar. O principal placar não será aquele marcado pelos telões do estádio, mas sim nas ruas em volta, na região e na causa palestina, como um todo.


Escrito por: Denis Araujo

26 de abr. de 2009

O Brasil de Hoje Não é por Acaso

Meados dos anos 90. O Brasil encontrava-se numa séria conturbação econômica. O modelo neoliberal do governo permanecia forte. As privatizações surgiam como válvula de escape, uma nova moeda e um novo plano financeiro se instalava. O desemprego, as taxas de pobreza e as denúncias de corrupção eram constantes. Na agenda de política externa, os Estados Unidos dominavam diversos tópicos. Politicamente, um jovem político iniciou a década no poder, este que passou à um senhor que pouco tempo ficou na cadeira da presidência e que poucos anos depois foi substituído por um velho sociólogo, possivelmente um teórico brasileiro das relações internacionais e que seguiu na contramão do modelo estatal de desenvolvimento.

Agora estamos no final da primeira década do século XXI, esta que logo mais passaremos a chamar de “anos 10”. A crise financeira derruba as taxas de crescimento econômico do mundo inteiro. O FMI e o Banco Mundial a todo momento divulgam novos dados e novas medidas de combate à este monstro econômico. As principais economias globais passam por sérios problemas de desemprego, desabitação, falta de crédito e liquidez, além da natural perda da hegemonia no sistema internacional. E enquanto isso, o Brasil (mesmo tendo seus problemas) passa a chamar cada vez mais atenção no cenário mundial. Mas esse fato não é por acaso.

Estamos chegando na metade do ano de 2009. Hoje o país experimenta apenas a beirada deste prato recheado chamado “crise”, sabendo que possivelmente não atingirá este recheio tortuoso. Sofremos redução no crescimento, nas taxas de emprego e nas linhas de crédito bancário? Sem dúvidas. Porém, esta redução foi muito menor do que aquela que as grandes potências sofreram e sofrem. O Brasil, hoje, está muito mais forte, favorecido principalmente pelo forte laço existente entre Estado e economia. Não é uma coincidência o fato de que a todo o momento mencionam que nosso país será um dos primeiros a sair desta crise e será um dos mais fortalecidos deste momento em diante. Além disso, o país representa uma capacidade de liderança nunca antes imaginada. E este fato também não é por acaso.

A estabilidade política em que se encontra o governo brasileiro é um marco não somente para a nossa própria história, mas para a história de toda a América do Sul e para todos os países chamados “emergentes”. A conceituada revista americana Newsweek fez um comentário bastante pertinente em sua publicação internacional desta semana: ”O Brasil vem se transformando na última década em uma potência regional única, ao se tornar uma sólida democracia de livre mercado, uma rara ilha de estabilidade em uma região conturbada e governada pelo Estado de direito ao invés dos caprichos dos autocratas”. E se antes havia uma provável disputa hegemônica na América Latina entre brasileiros, argentinos e mexicanos, hoje o que restam são apenas resquícios de richas históricas.

O Brasil é, mais do que nunca, um líder regional. E afirmo isso baseado não somente nas notícias publicadas recentemente na cobertura das grandes cúpulas e reuniões das potências mundiais, como também o que se percebe nos jornais dos países que compõem o Mercosul. Mesmo existindo certas desavenças com os paraguaios (Itaipú, Brasiguaios etc), até estes apontam nosso país como importante parceiro para sair desta crise. E assim o fazem argentinos, uruguaios, além dos membros associados Bolívia e até mesmo certos representantes venezuelanos.

O mais interessante é como o Brasil de Lula conseguiu, ao longo dos anos, mudar sua posição de aliado incondicional dos EUA para estrategista multilateral. Neorealisticamente falando, o país provou por A mas B que é possível acumular poder sem ser pela via bélica. Como citou a revista Newsweek: “(...) o poder do Brasil vem não de armas, mas de seu imenso estoque de recursos, incluindo petróleo e gás, metais, soja e carne". Além disso, o papel do Itamaraty foi fundamental para transformar o país em um dos grandes influentes no contexto internacional em diversos temas, somando-se a isso o fato do Brasil ter se tornado importante mediador dos conflitos de ideais entre grandes potências e gigantes emergentes, principalmente no que se diz respeito a agenda econômica e agrícola internacional. E o presidente Lula, por sua vez, tornou-se figura de grandiosa representação, sendo tratado como o ator “gente boa” das relações internacionais.

Independente das críticas, da vocação e da opinião política de cada um, me apoio nos comentários de importantes professores que tive e que tenho em minha formação. Estes mencionam o fato de que o bom estadista é aquele que sabe recuperar os danos da gestão anterior e dar continuidade aos pontos positivos da mesma. E isso Lula tem feito. Além disso, a projeção internacional que o Brasil assumiu foi conquistada pela figura presidencial e por seus acessores, todos inseridos no momento certo e na hora exata destas fortes conturbações mundiais.

O presidente atual não poderá mais se candidatar nas eleições do ano que vem, como manda a constituição brasileira. Dúvidas acerca dos candidatos à presidência do Brasil existem e hoje o eleitorado brasileiro aparenta estar muito mais maduro. A pergunta que fica é: “Onde será que vamos parar?”, se é que pararemos.


Escrito por: Denis Araujo