10 de nov. de 2008

G-20: Motivações Precisas de Um Otimismo Incerto

Domingo, 9 de novembro de 2008. Esta foi a data em que se encerrou a reunião do G-20, que une os países mais desenvolvidos e os países emergentes. Flashes e cafezinhos a parte, me alegro pela transparência que o ministro da Fazenda Guido Mantega conversou com os jornalistas no encerramento da cúpula, este que foi o coordenador da reunião. Mas mais do que isso, as intenções do presidente Lula em seu discurso de abertura aparentemente foram bem representadas e bem dialogadas.

Independente dos frutos que serão colhidos com essa reunião e posteriormente com a Cúpula de Washington que ocorrerá neste sábado (15 de outubro), uma coisa ficou bem clara, em fala do próprio ministro Guido Mantega: “As medidas tomadas até o momento são ineficientes!”. E estas palavras surgem em um momento bastante propício visto que, no mesmo dia, a China anunciou um auxílio de mais de 500 bilhões de dólares, similar a atitude norte-americana, a da Alemanha e de outros países alarmados com a crise econômica. A própria revista Carta Capital do dia 22 de outubro adiantou que certos exemplos deveriam ser seguidos (como a atitude britânica que, ao invés de despejar montantes de dinheiro para comprar dívidas de bancos, resolveu despejar capital diretamente nos balanços dos bancos e em troca assumindo parte de sua propriedade). Em outras palavras a revista aponta que “em vez de retirar água do recipiente que vaza, (...) estão tentando tapar o vazamento”. Ou seja, não adianta promover medidas emergenciais para tentar atenuar a crise, já que o mais correto seria corrigir o problema principal. E é exatamente neste ponto que os países emergentes poderão auxiliar.

Um dos resultados visíveis da reunião do G-20 (ao menos no ponto de vista teórico) é que as economias em desenvolvimento desempenharão um papel fundamental para combater a crise e auxiliar as grandes potências a retomarem o curso natural das coisas. Guido Mantega afirmou na coletiva de impressa do encerramento da cúpula que “o melhor instrumento contra a crise é o G-20”, e adiantou que “o Brasil defenderá uma regulamentação e uma fiscalização mais rigorosa”. Ao menos é isso o que se espera, como também se espera uma reforma nas instituições internacionais, como no Banco Mundial e, principalmente, no FMI (Fundo Monetário Internacional).

Contudo, durante todo o governo norte-americano de George Bush, três palavras deixaram de estar sublinhadas em sua agenda de política externa: América do Sul. Em outras palavras, o continente sul-americano foi deixado de lado. Claro que o presidente dos EUA e o presidente Lula da Silva tornaram-se aparentemente amigos quando o assunto foi o etanol, mas creio ter sido apenas uma nuvem passageira. Este distanciamento ficou notório nos últimos anos, tendo em vista que outros elementos estiveram muito mais destacados, como a atual guerra no Iraque e os problemas enfrentados no Afeganistão, além da própria corrida eleitoral e problemas domésticos. O que se espera de Barack Obama é que haja, agora, uma aproximação entre os EUA e o Brasil, visto que o principal tópico da pauta é a crise econômica.

Quando o assunto é esta aproximação, o chanceler brasileiro Celso Amorim mostra-se otimista, porém cauteloso. “Vem com amor, mas com o respeito também”, disse o ministro à Folha de S. Paulo de 9 de novembro. Este defende um “otimismo vigilante”, visto que, democrata ou republicano, o governo norte-americano é poderoso e pode muito bem aplicar protecionismo comercial, além de práticas intervencionistas na América Latina. Ou seja, as expectativas são boas, mas teremos que aguardar.

Por fim, destaco que a Cúpula de Washington servirá para observarmos se as intenções multilateralistas das grandes potências se confirmarão. Um fato é estarem cientes da importância deste multilateralismo e de uma maior influência dos países emergentes na cura desta crise econômica (visão teórica). Outro fato é se as grandes potências estarão dispostas a discutir novamente e chegar em uma resolução da Rodada Doha, por exemplo (visão prática).

Segue o otimismo, mas também segue a apreensão. Poderão as grandes economias mundiais cederem seus orgulhos e colaborarem para a salvação? E os países emergentes: poderão estes mostrar sua força com atitudes práticas? Certamente não perderemos o próximo capítulo desta história.


Escrito por: Denis Araujo

7 de nov. de 2008

Barack Hussein Obama II: A Imagem de Esperança e Carisma do Novo Governo Americano

A partir de hoje Filipe Matheus (colega internacionalista) fará parte deste blog, colaborando com suas visões e idéias acerca das cenas cotidianas que assistimos o mundo viver. Desde já agradeço e espero que esta parceria possa render frutos importantes e que possamos ampliar os horizontes de pensamento dos nossos leitores e de nós mesmos.



Dia 4 de novembro de 2008 o povo americano elege seu novo presidente, Barack Hussein Obama, tido como o primeiro presidente negro dos Estados Unidos. Todos comemoraram sua vitória, não apenas por ser a vitória de um negro, mas a vitória do povo americano contra o conservadorismo.

O recém eleito presidente formou-se em Harvard e na Universidade de Columbia, cursado em direito e política, esta com ênfase em relações internacionais, explicando a sua maior flexibilidade no que se refere em questões de política externa. Sem experiência no cargo executivo, foi alvo de questionamentos a respeito da sua capacidade de liderar o país, que hoje perde em prestígio e economia instável.

Obama, carismático e eloqüente, encantou rapidamente os latinos, a classe rica e as mais pobres, sobretudo os negros. Nunca em uma campanha houve tantas doações. Cerca de 1,6 bilhões de dólares foram arrecadados, deixando seu concorrente John McCain bem atrás desse número.

A corrida presidencial foi bastante assistida pelo mundo inteiro. Intrigas envolvendo seu nome e de um ex-colega tido como terrorista foram armas contra sua campanha, mas que pouco influenciaram na hora da votação.

Dias antes da eleição, representantes da União Européia visto se diziam a favor do futuro presidente, mas que torciam principalmente por Barack Obama, já que sua visão estreitaria os laços entre a Europa e os EUA, que se demonstraram tão afastados na atual política de George Bush. Temendo a expansão econômica da China e a política externa hostil da Rússia, se faz necessária uma aliança mais fortalecida entre norte-americanos e europeus.

Ao início das eleições, Barack Obama começa com uma grande vitória: o estado da Pensilvânia o elege. Aos poucos sua candidatura foi se legitimando com estados como o de Nova York e Massachusetts. Mas foi a vitória em Ohio que simbolizou a perda de seu oponente: nunca nenhum republicano venceu sem o apoio desse estado.

Perto das 2 horas da manhã, horário de Brasília, Barack Hussein Obama chega ao poder e a liderança da casa branca. Mas o que ficam são os seguintes questionamentos: poderá ele, enfim, retirar o país da lama? Será que sua política externa será tão diferente da antiga política? Será tarde demais para os EUA, já que a China já se assume como nova potencia econômica mundial? Os subsídios agrícolas defendidos por ele prejudicarão ainda mais os laços entre os países?

Talvez não saibamos ao certo, mas que é possível imaginar o novo cenário e indagarmos se a democracia americana e seu modo capitalista ainda é um ideal a ser seguido.



Gostaria de agradecer a Denis Araujo por ter me apresentado essa idéia magnífica de escrever sobre notícias diversas do âmbito internacional. Isso me inspirou muito como aluno e espero que inspire não somente alunos da área mas a todos que se interessam por questões globais.


Escrito por: Filipe Matheus

4 de nov. de 2008

A economia balança, os americanos votam, o Cristo fica rosa e Maradona torna-se técnico da seleção argentina: outubro/novembro como você nunca viu!

Pois é, são tantas notícias que às vezes fica difícil escolher qual ler primeiro e qual simplesmente deixar pra lá. A verdade é que nenhuma deve ser esquecida.

O mês de outubro foi marcado pela apreensão. O mundo vivendo um forte colapso econômico. As chancelarias e os ministérios da fazenda se pronunciando, com a finalidade de explicarem o que acontece, ou pelo menos para demonstrar seriedade e calma na hora de discutir os rumos da economia. Lembro bem quando a crise bateu na nossa porta e nosso presidente humildemente disse: “Nós estamos preparados! A crise não vai nos afetar!”. Lula estava meio certo.

Pouco a pouco o Brasil viu-se na obrigação de tomar medidas emergenciais. O governo federal não ficou de braços cruzados e teve de agir de forma bastante ponderada. O governo estava e ainda está preparado para o que está acontecendo, desde que os cálculos feitos até agora não se mostrem incorretos dentro de alguns dias, semanas ou meses. O fato é que não se sabe ao certo como será o futuro da economia mundial. Mas o país está caminhando bem, mesmo que a passos lentos.

Essa semana foi concretizada a união do Itaú com o Unibanco. Não vamos nos prender aqui se foi uma atitude boa ou não. Mas a Bovespa já sentiu essa atitude: ontem as ações dos dois grupos subiram bastante, e hoje estão indo muito bem, obrigado. A junção das operações dos dois bancos fez nascer o maior banco do hemisfério sul, dando forma a potencialidade do Brasil frente os demais países emergentes da América Latina e África. O jornal Pagina 12 da Argentina acentua muito bem o papel primordial do Brasil na economia de seu país, quando publicou recentemente em uma de suas matérias “(...) la sensación de vulnerabilidad no está supeditada a acontecimientos lejanos e incomprensibles, sino a la suerte del ajuste entre el real y el dólar. O dicho de otro modo, a la capacidad del Banco Central de Brasil de poner bajo control al mercado cambiario. Subordinados, sí, pero a un vecino conocido, socio y, además, poderoso.

Agora, deixando de lado o assunto em questão, passemos a debater agora o principal assunto da pauta de 2008: as eleições norte-americanas. Sim, existem zilhões de artigos jornalísticos, blogs e afins que tratam deste tema. Entretanto não existem zilhões de formas de pensar.

Agora são exatamente 13h30 no horário de verão. Os diversos fusos americanos me impossibilitam de citar o horário por lá. Mas independente do momento do dia, gostaria de mencionar a postura da CNN (www.cnn.com) e de outras emissoras e veículos jornalísticos: 90% estão com o cacoete de dizer que 4 de novembro é um dia histórico. Mas qual é o momento em que se faz história: na esperança americana? No sonho americano? No American Way of Life? Vou dizer a minha visão da história.

Barack Obama poderá ser eleito dentro de algumas horas. Jovem negro, negro inteligente, negro objetivo, negro democrata e negro negro. Li há alguns instantes uma frase que ele é o novo Martin Luther King. Negro.

Por que bato nesta tecla? Pois bem, segue a explicação. Obama representa a esperança norte-americana de retomar o desenvolvimento. Também representa uma revolução nos padrões governistas dos republicanos, já que o mundo teme que McCain seja eleito o novo Bush. Mas ele não é somente isso. Ele é um jovem senador (McCain é idoso); negro (McCain branco); Democrata (McCain republicano); McCain é veterano de guerra (Obama não).

Que atire a primeira pedra quem já assistiu um filme cliché americano tendo como protagonista um herói negro, estudioso, que não esteve em uma guerra, possui forte ligação com parentes na África e ainda defende uma gradativa retirada das tropas americanas de algum lugar!

Caro leitor, não estou tecendo críticas a nenhum dos candidatos. Apenas gostaria que pudesse perceber uma coisa: Obama pode ter a personalidade e a imagem da perfeição, da mudança, da revolução e que boa parte do mundo deseja ver. Mas na hora de votar, quem é que afirma que o preconceito absurdo e o conservadorismo exagerado dos americanos não vão vir a tona? Posso estar queimando minha língua quando digo e meus dedos quando digito, mas a história se fará quando Obama for eleito honestamente. Mas se fará mais ainda se Obama seguir fielmente sua frase de campanha “Change: we can believe in!”.

Negro, branco, oriental. Republicano, Democrata. Homens, mulheres...

Políticos são políticos. Na hora da campanha todos assumem uma postura. Mas a chamada Razão de Estado que os realistas tanto afirmam falará mais alto. Ou o mundo acha que Obama vai virar os Estados Unidos de cabeça pra baixo e mudar tudo? Sejamos coerentes: a linha de governo republicana irá perdurar por mais algum tempo, mesmo com o democrata no poder. Se ele tiver a mão firme, ele guiará esse trator de forma surpreendente. E esse é momento que a história se faz, não por ser negro, mas por ser correto e apagar George Bush da mente do povo.

Ah, quando disse que o Cristo ficou rosa, foi um fato verídico, mesmo que por pouco tempo. Maradona também está no cargo de técnico da seleção argentina, mesmo que por tempo incerto e sucesso indefinido.

Afinal, quem é rei nunca perde a majestade. Mas entrega sua corôa quando deve. E é assim que acredito na mudança.

2 de out. de 2008

Miscelaneando Política.

Oiiiii geeeeeeeente! Peço licença para invadir a sua casa. Peço desculpas, mas é que São Paulo tem pressa e, pra continuar no rumo certo, temos que seguir em frente já que a luta continua, companheiro. Portanto, vem vem vem, vem que tem, afinal já fiz muito por São Paulo e ainda tenho muito por fazer. Por isso eu preciso de você, afinal sou um democrata cristão. E olha lá hein, prefira o original porque o resto é cópia. Lembre-se: é tostão contra o milhão! E não se esqueça: corinthiano vota em corinthiano, entendeu? Mas isso você já sabe né, afinal São Paulo já sabe, são 110 AMAs, mas também o Leve Leite, o Fura Fila, o Aerotrem e tudo que puder fazer pra não deixar as vias congestionadas. Os corredores de ônibus? Dessa vez saem, junto com 65 km de metrô e expresso Tiradentes. Agora quero dizer que confio em você para que você confie em mim, porque vaga nas creches eu sei que não há. Mas não tem problema, afinal a mãe paulistana tá aí pra te ajudar. O CEU existe, imagina quando tiver conexão de internet para todo mundo e de graça? Eu me comprometo!

Sou vereador, já fui deputado, senador, ministro, jogador de futebol, lutador de boxe, cabelereiro e faxineiro. Vote em mim, vote nele e vote na nossa legenda. Mas vote! Afinal, preciso do seu voto para que, juntos, eu e você, possamos continuar nessa caminhada rumo a vitória! Vitória, vitória, vitória! E se você for da facul, vote no gluglu, tá certo?


(...)

O que você quer para seus próximos possíveis 4 anos? Não. Não pergunto o que o prefeito x ou y fez pelos pobres, pelos desempregados, pelos ricos, pelos empresários. O que o político fez por você? O que chega na sua casa de vantagens e desvantagens? O que aquele governante fez que mexeu diretamente com sua vida? E indiretamente? O que te atinge? O que te influencia?


O exercício de cidadania é inteiramente seu. Cabe a você seguir suas próprias convicções, vontades e anseios, estudando, analisando e avaliando as melhores propostas ou o que já foi feito. Ou simplesmente seguir as mais variadas opiniões de pessoas que também seguem as mais variadas opiniões.

Antes de votar na urna eletrônica, faça um voto de reflexão. Não deixe uma oportunidade assim escapar!

(...)

E se o Pitta não for um bom prefeito? Há, relaxa e goza, vagabundo!

Para vocês o meu muito obrigado e até amanhã.

6 de set. de 2008

Nacionalismo e Futebol: A Relação de Duas Profundas Ideologias

Uma das maravilhas (do ponto de vista informativo, é claro) do mundo atual é a globalização e seus processos evolutivos. Fica evidente que estabelecemos contato com diversas culturas diariamente, independente do lugar do mundo onde estivermos. Tais processos evolutivos trazem a tona todos os dias um termo utilizado por Samuel P. Huntington em seu livro, cujo mesmo carrega o próprio termo no título: O Choque das Civilizações. De forma sucinta, a idéia deste choque está presente nas cenas do noticiário da noite: conflitos na Faixa de Gaza, a iminência de uma guerra entre Índia e Palestina, o recente alavancamento da crise entre Geórgia e Rússia, a afirmação de Kosovo como uma nação independente etc, ou seja, o Estado deixa de ter um papel exclusivo nos embates e a civilização começa a ser mais ativa (justificado pela ação dos mais variados grupos nos mais variados conflitos). As guerras da atualidade (e mesmo as antigas) sempre trouxeram uma disputa evidente: o embate entre ideologias diferentes, enfatizadas por um nacionalismo exarcebado. Mas a globalização citada no início deste texto também traz aos poucos uma teoria polêmica: o nacionalismo como conhecemos está chegando ao fim.

O choque de culturas, o qual convivemos diariamente, transforma a sociedade. E a globalização é a "culpada" por este fato. Sua evolução conforme os anos transformou, mesmo que indiretamente, o conceito de nacionalismo tão presente nos discursos políticos de outrora. Como isto se justifica? Basta observarmos um ponto bastante perceptível deste fato: as guerras dos séculos passados e, principalmente, as guerras mundiais do século XX exterminaram um absurdo número de pessoas, civis e soldados. Entretanto, boa parte dos conflitos armados atuais (por conta de avanços tecnológicos e ideológicos) não dizima civis aos montes como ocorria antes, tendo em vista que os alvos são muito mais perceptíveis em sua grande maioria. Os civis (deixo bem claro que não são todos, mas uma grande parte) passam por um processo de imigração obrigatória, ou seja, são forçados a se refugiar em outros países. Gostando ou não, os países que recebem os refugiados são obrigados a enquadrá-los em seu sistema, e os imigrantes passam a conviver com uma nova realidade, porém carregando consigo sua identidade cultural primária.

Evidente ou não, o fato é que a identidade nacional que se tinha anteriormente passa por um processo de adaptação ao enquadrar tantos indivíduos originais de outros territórios, de outras culturas. E o sentimento da pátria passa a se perder, ou então a se transformar, surgindo talvez o que podemos chamar de "nacionalismos" em um mesmo país ou mesmo "transnacionalismo". Eric Hobsbawn cita em seu texto "As Nações e O Nacionalismo no Novo Século" (presente no livro do mesmo autor "Globalização, Democracia e Terrorismo") : "[...] Como Benedict Anderson observou com acuidade, o documento crucial de identidade no século XXI não é a certidão de nascimento do Estado nacional, e sim o documento internacional de identidade - o passaporte ". E completa com questionamentos bastante pertinentes: "Qual é o significado dos direitos e obrigações de cidadania nos Estados em que uma proporção substancial dos seus habitantes [...] está ausente do território nacional ou em que uma proporção substancial dos residentes permanentes tem direitos inferiores aos dos cidadãos nacionais? Dada a escala dos movimentos, legais e clandestinos, qual é o efeito do declínio do poder do Estado para controlar o que acontece no seu território, ou mesmo - como a recente falta de confiabilidade dos censos nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha parece indicar - para saber quem nele reside?"

E onde entra o futebol neste tópico?

Pois bem. O futebol é, desde os anos 80, uma grande “empresa” que movimenta enormes quantias de dinheiro todos os dias, tudo por conta da atividade global televisiva, que fez com que este esporte se tornasse, de fato, um "complexo industrial capitalista de categoria mundial", como explicita Hobsbawn (cito a década de 80 porque é o período em que se iniciou o grande fluxo de jogadores contratados para jogar em clubes de outros países). A partir disso, podemos identificar dois tipos de identidade em um mesmo jogador: a local (do clube onde joga) e a nacional (representada pela seleção que o próprio representa). Entretanto, a identidade nacional do jogador é profundamente ofuscada pelos salários monstruosos e remunerações que recebe do clube onde atua, fazendo com que, muitas vezes, o atleta prefira atuar apenas no país em que está jogando do que na seleção que representa sua pátria (ou até mesmo faz com que as grandes empresas do futebol proíbam que o jogador atue na seleção, como praticam os grandes clubes europeus).

O atrativo monetário e a boa receptividade que os atletas recebem nos mais diversos clubes dos mais diversos países em que jogam, provocam, inclusive, que o jogador assuma uma segunda nacionalidade e que até jogue por uma nova seleção (como ocorre com jogadores brasileiros na Europa ou no Japão e, principalmente, como ocorre com jogadores africanos). As duas maiores conseqüências deste processo são: 1) a supervalorização e a manutenção do alto nível dos campeonatos europeus, principalmente; 2) o enfraquecimento dos clubes de países subdesenvolvidos, como ocorre com freqüência no Brasil e na Argentina, que passam a vender seus jogadores cada vez mais cedo para lucrarem durante as temporadas ou no intervalo das mesmas.

Todos estes fatores influenciam, e muito, no conceito original de "nacionalismo". Porém ainda existe um exemplo primordial da permanência do sentimento nacional dos jogadores de futebol: a Copa do Mundo. Este torneio provoca, principalmente nos países africanos e asiáticos, a ascensão de uma identidade nacional que vai além da localidade, religião, cultura, tribo etc. O sentimento pátrio é aflorado a cada 4 anos no torneio mundial. Isto se justifica objetivamente com uma frase de Eric Hobsbawn: "a comunidade de milhões aparece com mais realismo em um grupo de onze pessoas do mesmo país".

Para finalizar, é necessário citar outro ponto: a xenofobia. Os países desenvolvidos tendem a sofrer (ou a se vangloriar, dependendo do ponto de vista) com o crescente sentimento dos torcedores, primeiramente pelo clube, posteriormente pela seleção nacional. E é por isso que, por mais que se tente coibir, o "hooliganismo", os skin heads e as torcidas organizadas violentas jamais deixarão de existir.

Portanto, é provável que hoje seja necessário discutir nas escolas, nas rodas de conversa, no trabalho e em casa com a família o que significa "nação". Porém não por conta do sentimento, mas sim por conta da cidadania, esta que não pode perder suas funções originais, independente de onde morarmos. E o que significa cidadania? Bem, este é um outro assunto.

8 de ago. de 2008

Pequim (Beijing) 2008: A Beleza de Uma Máscara Sobre Uma Realidade Nem Tão Bela Assim.

Como não poderia ser diferente, escrevo neste momento sobre o evento esportivo mais aguardado dos últimos anos: as olimpíadas da China. Mesmo quem não se importa muito com tais festividades, este evento chamou a atenção de todos, independente de idade, sexo, cor, credo ou classe social. Finalmente os chineses conseguiram mostrar pro mundo quem eles são agora (ou quem tentam ser), com uma beleza estrondosa em cada movimento apresentado no Estádio Nacional de Pequim, também conhecido como Ninho de Pássaro.

Um evento esportivo, o mesmo que acontece a cada quatro anos, que já ocorreu em Atenas, Sidney, Barcelona e que, talvez, muito em breve o veremos no Rio de Janeiro. O mesmo? De forma alguma. As olimpíadas, desta vez, não são apenas voltadas para o esporte. Desta vez serve como janela, para que todos nós possamos observar o que a China tornou-se nos últimos anos: de país atrasado no século XX, para uma superpotência no século XXI. Mas algo não está suficientemente claro, e é este ponto que quero discutir: os chineses querem chamar atenção por sua tremenda evolução, mas certos valores eles não largam e creio que nunca o farão. E isto fica cada vez mais explícito.

Os resquícios de uma forte ditadura comunista ainda permanecem. A mídia é extremamente censurada, provocando uma grande contradição no mundo, já que queremos conhece-los, mas não o podemos fazer com riqueza de detalhes. Estão nos manipulando, sem dúvida. Não quero ser apelativo, mas é isso que está acontecendo. Querem nos passar o que eles possuem de melhor, mas escondem-se por trás dessa máscara chamada de Olimpíadas.

Chamo a atenção agora para um aspecto fundamental para notarmos como realmente eles evoluíram e quebraram fortes barreiras: na ditadura de Mao Tse-Tung, o culto a beleza era proibido. Não poderiam existir flores, cores diversas. E isso era realmente vigiado para que não ocorresse. Hoje a China mostrou que vive num mar de rosas e em um grande arco-íris. Doce ilusão.

Na concepção do chinês atual, jamais houve em sua história um momento tão bom. Do ponto de vista deles, o fato de promoverem esta olimpíada é a maior vitória e um start em seu novo capítulo histórico: A Grande Potência do Século. Tecnologia, alegria, união, recepção, ansiedade, amizade, amor, evolução... Aspectos que observamos com muita notabilidade em uma abertura olímpica de nos deixar de queixos caídos. Descaso, censura, perseguição, guerras, mortes... Aspectos que se tornam secundários atrás de um fenômeno esportivo de proporções gigantescas. A China não é somente a grande potência emergente do século. É também a causadora do maior genocídio do mesmo. O local? Darfur, capital do Sudão. O governo chinês explora seu território, retira a matéria prima, petróleo e gás. Em troca, dão armas e financiam uma guerra sem precedentes, com um número cada vez mais crescente de mortes (estima-se que mais de 300 mil mortos). Um crime, sem sombra de dúvidas, que não é novidade. Todos os países sabem disso. E por que nada ocorre? Simples: a China é detentora de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU, podendo vetar qualquer intervenção militar na região e escapando de punições.

Não obstante, a situação do Tibet continua indefinida. Se não fosse o grande sistema de segurança e antimanifestos promovido pela polícia chinesa, seria muito fácil observar cartazes em toda a capital chinesa com os dizeres “FREE TIBET”. Ah, lembram-se de um terremoto violento que ocorreu no país? Incrível como ninguém mais se lembra, pelo menos não os chineses pró-olimpíadas. Nada, mas absolutamente nada poderá atrapalhar este fenômeno esportivo e político. Pelo menos é o que se espera no início destas Olimpíadas.

Tenho certeza que muito acontecerá. Este evento é apenas o início. Por ora, abram alas que os chineses querem passar.

4 de ago. de 2008

Brasil: Um País de Todos?

" O meu pai era paulista. Meu avô, pernambucano. O meu bisavô, mineiro. Meu tataravô, baiano. Meu maestro soberano foi Antônio Brasileiro ". Assim canta Chico Buarque na música "Paratodos". Mas afinal, com tantas diferenças, o que nos torna iguais? O que nos torna diferentes? Em que parecemos? O que e quem somos?

Resolvi escrever acerca deste tema após ter uma breve conversa com uma amiga carioca, esta que o tempo todo rasgava elogios sobre sua "Cidade Maravilhosa" e eu, em contrapartida, defendia e criticava minha cidade, na Grande São Paulo e a própria capital paulista. Observei, principalmente, um excesso de prepotência em todas as colocações que esta minha amiga realizava e, ao mesmo tempo, percebi o quanto não é somente ela que é assim. Normalmente os moradores das capitais do Brasil e demais cidades costumam agir desta maneira, amando a cidade onde vivem e falando mal das demais capitais e seus arredores. Creio não ser um preconceito existente apenas em nosso país. É, talvez, algo que existe e que jamais se extinguirá.

Aquele homem que atravessa a rua pode muito bem dizer que seu pai é paulista, sua mãe mineira e seu avô pernambucano. Aquela senhora pode dizer que é filha de pais cariocas, vindos de uma família exclusivamente do Rio de Janeiro. O jovem alí fazendo compras pode querer vangloriar-se de ter uma genuína ascendência européia e carregar no sobrenome o que restou dela. Enfim, o Brasil é formado por diferentes pessoas, diferentes localidades, diferentes costumes... Tudo é diferente. E talvez por não conseguir conviver com tantas diferenças, o brasileiro acostumou-se a não se tornar algo novo, e resolveu gerar barreiras para segregar ainda mais este país. Historicamente houveram várias tentativas de emancipações regionais (ideologias estas que ainda existem, por mais que não sejam tão expressivas). Há quem diga, inclusive, que o país seria melhor se não fosse tão grande. Não discuto isso. Existe sim uma verdade nesta afirmação, mas como é algo que, nos dias de hoje, não é cabível de se colocar em prática, temos que analisar nossa situação como um todo.

Enfrentamos diariamente problemas, estes que são decorrentes de uma economia que historicamente sempre viveu altos e baixos. Também lutamos contra falhas do sistema político, resquício de ideologias sempre tão diferentes e inovadoras, que acabam sendo sempre farinha do mesmo saco. Mas vivemos.

Caminhamos a passos curtos. Porém enfrentamos algo que nunca pensamos: quem somos nós? Qual é a identidade deste país? O que é ser, afinal, brasileiro?

Queremos o tempo todo estar no topo. Queremos ser que nem os europeus. Não, europeus não porque fomos colonizados pelos portugueses e este foi nosso maior problema. Sejamos então como os americanos! Que? Não não, ser que nem os americanos não, eles são maus, Bush é um terrorista, estes sim são os prepotentes. Enfim, sejamos então como os chineses! E viver em um país não-democrático, que censura a mídia?

Queremos ser quem então? O tempo todo tentamos imitar tendências, mas nunca criamos a nossa. Ah não, criamos sim! Temos o melhor futebol do mundo, as mulheres mais bonitas, o carnaval, o jeitinho brasileiro e o Cristo Redentor!

Que é isso? Isso nos faz melhores do que os outros? Pelé é melhor que Maradona! E isso gera a mais estúpida rivalidade, entre brasileiros e argentinos. Nações que deveriam ser irmãs e que em toda casa brasileira existe um ser que diz que argentino é raça inferior e todo o velho bla bla bla que já conhecemos.

No Rio de Janeiro tem muita violência. Tem sim senhor. Mas tem no país inteiro? Tem sim senhor. Os brasileiros costumam apontar os erros dos vizinhos, mas dificilmente param e olham para si mesmo.

Estamos bem longe de sermos um país de ótimo IDH e alto nível econômico. Realmente caminhamos a passos curtos e, para piorar, persistimos em falar mal de tudo: do país, dos outros países, dos moradores dos outros estados, dos adversários do futebol, etc. O Brasil quer ser alguém, mas primeiro precisa ser. O que é ser brasileiro, antes de ser paulista, carioca, gaúcho, baiano, goiano? O Brasil precisa ser apenas um Pão de Açúcar, um jogador de futebol, uma mulher que dança funk, uma escola de samba? Podemos ser muito mais que isso, e espero viver para ver que um dia estes itens tornaram-se nossos adicionais, e não nossa identidade.

Ah, que fim levou a conversa com minha amiga carioca? Depois de tantas críticas um ao outro, resolvi concluir, dizendo que para ser uma verdadeira internacionalista (e para, principalmente, ser um cidadão brasileiro) é necessário primeiro odiar o Brasil, para depois aprender a amá-lo.

E eu realmente acredito nisto.